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Terça-feira, 30 de Junho de 2026

Colunas/EDUCAÇÃO VIVA

Mais horas na escola: a meta de 2026 e a pergunta que ela não responde

A ampliação da jornada está formando melhor ou apenas prolongando a permanência dos alunos?

Mais horas na escola: a meta de 2026 e a pergunta que ela não responde
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O Brasil está próximo de cravar um número simbólico: chegar a 2026 com 100% dos seus territórios oferecendo matrículas em tempo integral na educação básica. A cobertura já beira os 90%, segundo o Ministério da Educação, e em fevereiro de 2026 a pasta comemorou ter atingido "pela primeira vez na história" o maior percentual de estudantes em jornada ampliada. Somando todas as etapas, a educação integral saltou de 18,2% para 22,9% das matrículas entre 2022 e 2024. O motor dessa expansão é o programa Escola em Tempo Integral, criado pela Lei 14.640/2023, que mobilizou R$ 4 bilhões com a meta de gerar 3,2 milhões de matrículas. E o novo Plano Nacional de Educação (2026–2036) eleva a régua para a próxima década: 65% das escolas públicas em tempo integral e 50% dos alunos atendidos até 2036. Pelo critério do Inep, vale como "tempo integral" a matrícula de pelo menos sete horas diárias e cinco dias por semana, também referidas como as 35 horas semanais.

Por que isso importa para quem não trabalha com educação? Porque tempo integral é, ao mesmo tempo, uma política educacional e uma política social das mais concretas que existem. Para uma família que depende do próprio trabalho para sobreviver, uma escola que acolhe a criança o dia inteiro não é detalhe pedagógico: é a diferença entre poder ou não aceitar um emprego, é a refeição garantida, é o filho longe de riscos no contraturno. E há evidência de que funciona como ferramenta de permanência: manter o jovem mais tempo na escola, com atividades que façam sentido, é uma das estratégias mais citadas para combater a evasão, sobretudo no ensino médio, onde as matrículas integrais cresceram de 20,4% para 24,2% no mesmo período. Não por acaso, o programa prioriza, no desenho do financiamento, os territórios mais vulneráveis e os estudantes com deficiência, quilombolas, do campo e indígenas.

Mas aqui está o ponto que a manchete da "meta batida" tende a esconder: tempo integral não é a mesma coisa que educação integral. Estender a jornada é só o primeiro passo, bem como o mais fácil de medir. A própria secretária de Educação Básica do MEC, Katia Schweickardt, foi explícita ao dizer que cumprir as sete horas é "apenas uma dimensão", e que a qualidade da vaga é a etapa seguinte. Encher o dia da criança com vivências sem propósito e direcionamento produz tédio e cansaço, não aprendizado. Educação integral, no sentido que a lei e os especialistas defendem, exige três pontos que dinheiro nenhum compra automaticamente: professores qualificados, infraestrutura de verdade e intersetorialidade, ou seja, a saúde, a cultura e o esporte assumindo o mesmo compromisso que a educação. A controvérsia honesta, portanto, é se o país vai expandir com qualidade ou apenas inflar uma estatística que parece boa no relatório e rasa na vida real do aluno.

No fim, a meta de 100% dos territórios é uma boa notícia que merece ser comemorada como avanço de uma política historicamente tratada como privilégio de poucos no cenário nacional. Entretando, número redondo é começo de conversa, não o fim dela. A pergunta que cada comunidade escolar precisa fazer, agora que a porta da escola fica aberta o dia inteiro, é a mais simples e a mais difícil de todas: o que, exatamente, está acontecendo lá dentro durante todas essas horas? Porque "mais tempo de escola" só vira "mais educação" quando a sociedade decide olhar para dentro da sala, não apenas para o relógio na parede.

FONTE/CRÉDITOS: João Vitor
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