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Terça-feira, 25 de Agosto de 2026

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Presença sem pertencimento: o que a matrícula não mede

O Brasil aprendeu a contar quem entra pelo portão. Falta descobrir quem se sente parte do que existe lá dentro

Presença sem pertencimento: o que a matrícula não mede
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O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes registrou, em sua edição de 2022, que 76% dos estudantes brasileiros de 15 anos declararam sentir que pertencem à escola, percentual praticamente idêntico à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de 75%. À primeira vista, é um número positivo. Contudo, o mesmo levantamento apurou que 27% relataram sentir-se solitários na escola e 19% se descreveram como alguém de fora, deixado à margem das coisas, contra médias internacionais de 16% e 17%. Existe, portanto, um contingente que ocupa a carteira, cumpre a frequência e consta na estatística, mas não se reconhece como parte daquele lugar.

O dado decisivo, entretanto, não é a média, mas sim a distância interna que ela esconde. Segundo o Education GPS, plataforma de indicadores da própria OCDE, a diferença no índice de pertencimento entre os estudantes brasileiros do quartil socioeconômico mais alto e os do mais baixo é uma das maiores entre todos os países participantes: o Brasil ocupa a quinta posição em 73 sistemas avaliados. Em outras palavras, o país não apenas reproduz desigualdade de aprendizagem, algo já amplamente documentado, como também replica a desigualdade de sentir-se pertencente. O estudante de menor renda não recebe apenas uma escola com menos recursos. Ele recebe uma escola onde é menos provável que se sinta em casa.

Essa constatação obriga a examinar aquilo que o Brasil escolheu medir na última década. A política educacional brasileira construiu seus indicadores mais robustos em torno do acesso: taxa de matrícula, cobertura, permanência, aprovação, distorção idade-série. São métricas legítimas e conquistadas com esforço, pois foram elas que sustentaram a universalização do ensino fundamental. Todas, porém, respondem à mesma pergunta: o estudante está lá? Nenhuma delas alcança a pergunta seguinte, que é qualitativamente distinta: aquele lugar foi construído contando com ele? Ou seja, enquanto contar corpos é operação simples e barata, aferir pertencimento exige escutar o estudante, e escuta não cabe em planilha de rede.

A omissão tem consequência mensurável. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2019, ao perguntar diretamente a jovens de 15 a 19 anos que deixaram a escola por que saíram, obteve como resposta majoritária a falta de interesse em estudar, apontada por 38% deles, à frente da necessidade de trabalhar, com aproximadamente 23%. É comum ler esse número como diagnóstico de desmotivação individual, quase um traço de caráter da juventude. Trata-se de leitura conveniente e provavelmente equivocada. Falta de interesse é, muitas vezes, o nome que o estudante encontra para descrever a experiência de frequentar por anos um ambiente que nunca o incluiu de fato. A evasão raramente é um evento súbito, configurando-se como o desfecho de um desligamento gradual que os indicadores de frequência não registram justamente porque, até o último dia, o aluno continua presente.

Há um momento institucional que torna essa discussão incontornável agora. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais instituiu, em 2024, grupo técnico para reformular o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, e especialistas e organizações demandam que o novo indicador incorpore parâmetros relacionados às desigualdades, incluindo aspectos socioeconômicos e raciais. O novo Plano Nacional de Educação, instituído pela Lei 15.388 de abril deste ano, traz pela primeira vez metas voltadas especificamente à redução de desigualdades entre grupos sociais, com o princípio da equidade atravessando todos os seus objetivos. Isto é: o país está, neste exato momento, decidindo o que sua educação vai considerar digno de medição pelos próximos dez anos.

Reconhecer pertencimento como dimensão avaliável não significa transformar sentimento em nota, tampouco criar mais um ranking para constranger escolas já sobrecarregadas. Significa admitir que aquilo que não é medido tende a não ser priorizado, e que uma década inteira de política pública organizada em torno do acesso produziu escolas cheias sem garantir que fossem escolas acolhedoras. O Censo Escolar sabe informar quantos estudantes cruzaram o portão neste ano. A pergunta que ele ainda não formula, e que talvez seja a mais importante de todas, é outra: quantos deles, uma vez lá dentro, encontraram um lugar que também pudessem chamar de seu?

FONTE/CRÉDITOS: João Vitor
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